Escola Primária de Caçarelhos faz 140 anos

Por F. M. Formariz

A Escola Primária Oficial de Caçarelhos faz 140 anos, pois foi criada por diploma oficial do Concelho Superior de Instituição Pública de 17/02/1852.O significado e alcance da efeméride apenas se compreendem quando enquadrados no ambiente sócio-cultural do País e desta região, quando ainda não havia hábitos nem tradição de escolaridade e as carências eram de toda a ordem.


A nível nacional, para a população de 4 milhões de habitantes, havia apenas 1194 escolas primárias oficiais (agora são 9 mil) frequentadas por 50642 alunos e 1082 escolas particulares com 27231.
A nível regional, a taxa de analfabetismo era muito superior ainda, visto que, na área correspondente aos actuais concelhos de Miranda, Mogadouro e Vimioso, para além das respectivas sedes, só Bemposta e Sendim tinham já ensino oficial. A 3ª escola desta vasta zona foi a de Caçarelhos.
O POVO, sobretudo no meio rural, ainda não se apercebera dos benefícios da escolaridade e, porque fora mal informado, dela se desinteressava, se não mesmo a hostilizava como sorvedouro de impostos e forja de vadios e madraços.
Às CLASSES PRIVELIGIADAS interessava uma massa popular ignara, submissa, inconsciente e fornecedora de mão-de-obra gratuita ou muito barata.
“Em geral a introdução é considerada (para a plebe) como uma casaca ou um chapéu de seda a um trabalhador da enxada” – Criticava F. Pedroso em 1891. Não é necessário dizer mais nem possível dizer melhor.
A IGREJA CATÓLICA, espoliada dos seus bens e do clero regular, desde 1834, sem meios e talvez sem disposição para alfabetizar, só catequizou.
O ESTADO não se consciencializara ainda das suas responsabilidades educacionais. Uma onda de fresca aragem insultada pelo Iluminismo/Liberalismo fez publicar leis promissoras de mudança e progresso como, por exemplo, a que torna a escolaridade elementar obrigatória e gratuita em 1835. Infelizmente não passaram de boas intenções ou de óptimos projectos que hibernaram longa e placidamente nas gavetas das secretárias de sucessivos governantes. Explica-se e com é compreende-se, mas não se desculpa nem justifica a arrepiante e lastimosa penúria de que enfermou o ensino (elementar) em Portugal.
Apesar de tantas carências e atrasos a nível nacional e regional, a escola de Caçarelhos foi quase pioneira. E porquê? Simplesmente porque não esperou pelos dinheiros públicos nem deles dependeu. Foi criada porque alguém, sozinho, fez todas as infra-estruturas. Sem esse alguém teria demorado muito. Não digo tanto como os quase cem anos que esperamos pela construção do Edifício actual, mas digo, muito. Esse alguém, que pós ao serviço do progresso da sua terra natal o seu dinamismo, influência e saber chamava-se José Maria Bartolomeu. Na sua própria casa de morada reservou uma boa sala para aula, angariou o material didáctico indispensável, concorreu foi examinado e aprovado pelo Comissário dos Estudos do distrito de Bragança e, seguidamente, nomeado 1º professor da cadeira de Caçarelhos. Recebia o vencimento anual de 90$000 réis pagos pela Câmara Municipal. Tal vencimento lhe permitiu deixar de ser agricultor nas horas livres da 
escola.
A sua grande actividade cultural modificou o ambiente: o linguajar do povo passou a ser também em português (o “grave”), a arte de representar os autos populares no tabuado aperfeiçoou-se, os alunos sentiram-se estimulados para continuar os estudos, e povos vizinhos, num misto de admiração e troça, cognominaram os caçarelhences de “letrados” e “doutores” por saberem ler, escrever e fazer contas “na ponta da unha” . A fama da competência deste professor e os óptimos resultados obtidos pelos seus alunos, que sempre brilharam no secundário, encheram-lhe a aula de forasteiros vindo de todo o planalto até para os confins de Mogadouro, deixando escolas mais próximas.
O “Senhor Mestre” assim ficou a ser conhecido, faleceu a 16/01/1884, com 59 anos de idade. Houve longa memória. Tudo vai passando O facto de nada, na povoação assinalar o local da sua 1ª escola e o nome do seu fundador é descuido indesculpável e divida de gratidão por saldar.
Depois deste, outros professores aqui deixaram obra tão brilhante que bem merecem ser libertados da lei do esquecimento. Nomeio apenas aqueles que já não pertencem ao número dos vivos.
Alfredo José Moreno veio de Lagoaça, aqui constituiu família e ensinou com rara competência e proficiência até 1915, data em que nos quis deixar. Morou na casa da Abadia onde nasceu o filho Abel (que adiante refiro), e aí leccionou até que construiu a “Casa da Escola”, que o foi, ao longo de 50 anos, para tantos que por lá passámos. Também nada nessa casa, exterior e publicamente, assinala esse facto, de grata memória para quem lá aprendeu.
Guilherme da Cruz Madureira, natural de Carção, aqui conviveu connosco desde 1929 a 1936. Professor de alto gabarito, foi também um “juiz de paz” tentando ajudar sempre na resolução das questiúnculas do dia a dia.

Abel Augusto Moreno. Aqui nasceu a 25/12/1900 e aqui viveu até 1915. Regressou definitivamente em 1936. Foi “o senhor Moreno”. Faleceu em 13/09/87. Exerceu aqui o magistério desde 1936 a 1966. No ano anterior, tinha sido condecorado em Lisboa, pelo presidente da República. Entre nós, foi, de facto o professor do século uma estrela tão brilhante cujo fulgor conseguiu, pela primeira vez, acabar com o analfabetismo aqui, levar todos os meninos a exame, onde obtinham muitas distinções e, em toda a sua vida, apenas um aluno lhe foi reprovado e todos sabemos porquê. Foram sem conta as horas que gratuitamente ofereceu aos seus alunos durante toda a sua vida, para além do horário normal. Trabalhava-se até ao por do sol. Que “Deus lhe pague”. O actual edifício escolar bem merecia tê-lo como patrono. Devemos-lhe a manifestação pública que ainda não fizemos. A memória dos homens é curta e minguada a sua gratidão.
[ Mensageiro de Bragança – 21-02-1992]

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