Casamentos de Carnaval / Dia de São Valentim

I

Lendo o artigo do “CAÇARELHOS blogspot Com” dedicado ao Carnaval vivido em Caçarelhos e às suas tradições, como natural dessa mesma aldeia, que muito me honra, gostaria de salientar uma particularidade ao que naquele “blog” era referido sobre os casamentos de Carnaval e que, na minha opinião, tem muito a ver com o dia de S. Valentim (dia dos namorados) que agora se aproxima. Questionarão os leitores do citado “blog” porquê…?


Pois bem, se nos recordarmos do porquê da existência do dia de S. Valentim saberemos que não existe uma certeza concreta, mas subsistem duas possibilidades, sendo que, uma delas refere que, em tempos passados, Itália vivia uma grave crise de angariar mancebos para integrar as fileiras das suas tropas de forma a poder enfrentar as guerras que assolavam aquele país, pelo que, foi elaborada uma lei que proibia casamentos tendo em vista que, não havendo matrimónios, haveria mais possibilidade de os mancebos integrarem as forças dos exércitos, todavia, existia um bispo, cujo nome era Valentim, que atendendo aos pedidos dos enamorados, às escondidas, continuava a efectuar casamentos. Esta insubordinação, logo que descoberta, levou a que o referido bispo fosse condenado à morte por decapitação …, dai resultando o “São Valentim”. Por outro lado, outros defendem que na antiga Roma, durante uma festa popular, profana, coincidente com o mês de Fevereiro, era metido um pequeno manuscrito, com os nomes, individuais, de todas as raparigas solteiras daquela localidade e que, posteriormente, os soldados, ao acaso, retiravam do recipiente onde todos as solteiras constavam, um bilhete que continha o nome daquela que viria a ser (por brincadeira) a sua namorada durante todo aquele ano e à qual denominavam de “namorada de S. Valentim”.
Analisadas estas duas hipóteses e tendo em consideração a segunda, facilmente veremos que existem algumas semelhanças ou co-relações, bem actualizadas, com os casamentos de Carnaval que se efectuavam em Caçarelhos e o proclamado dia de S. Valentim.
Se não vejamos, durante os casamentos de Carnaval de Caçarelhos, que na verdade não passavam de uma graçola, por conseguinte com a maior aberração possível e tendo em vista a chacota; sempre se realçam algumas excepções, designadamente, de alguns membros da mocidade* mais destacados que, propositadamente, manipulavam aquela nomeação de forma que coincidisse com a moça que traziam agarrada aos seus corações.
Daqueles casamentos carnavalescos resultavam aproximações que, de outra forma seriam complicadas ou quase impossíveis e que, por vezes se tornavam em namoros reais.
É perante o exposto que, como disse, na minha particular opinião, existem semelhanças evidentes e oportunas na semelhança dos eventos “S। Valentim” e nos ditos “casamentos de carnaval” que se efectuavam em Caçarelhos, dada a semelhança e até a altura do ano.

II

Sabendo que muitas pessoas já não se lembram da particularidade dos mencionados casamentos, ou porque alguns, na sua altura de vivência, já não se realizavam vou passar a, de forma grosseira, descrevê-los:
Com um rascunho previamente elaborado pelos membros mais velhos da mocidade*, na noite de terça-feira de carnaval, em locais da aldeia pré-estabelecidos (Igreja, Cruzeiro e Capela), eram efectuados os ditos casamentos, com a participação de todos os membros masculinos e escutados com pormenorizada atenção pelas raparigas.
Os casamentos eram gritados através de embudes**, existindo para tal a primeira voz, a segunda voz e o coro.

Exemplo:

1ª Voz – “Agora vamos a casar!…”
2ª Voz – “E quem há-de ser?”
Coro – “há-de ser…há-de ser…”
2ª Voz – “Mas quem há-de ser?”
Coro – “há-de ser…há-de ser…”
1ª Voz – “há-de ser FULANO”
2ª Voz – “e com quem hade ser?
Coro – “há-de ser…há-de ser…”
2ª Voz – “Mas com quem há-de ser?”
Coro – “há-de ser…há-de ser…”
1ª Voz – “há-de ser FULANA”
Coro – “háa…háa…háa…háa…”
2ª Voz – “e que lhe havemos dar de botos?”
1º Voz – “damos-lhes a terra do Vale D’arca para se rebolcarem… (ou qualquer outra coisa que tivesse graça)”
Coro – “háa…háa…háa…háa…”

Realizados os casamentos e passada a Quaresma, em que não havia divertimento “pr’a ninguém”, chegava o Domingo de Páscoa e nesse dia os recém-casados (carnavalescos), com a devida autorização dos pais da moça, era-lhes permitido darem 3 abraços (nalguns casos provavelmente haveria beijos, mas esses, a existirem, tinham de ser às escondidas devido à austera moralidade que se impunha). Dessa aproximação, obviamente, como já mencionado, existia a probabilidade de surtirem alguns casos de amor, daí a importância do evento.
Lamentavelmente, por não haverem jovens em número suficiente, devido à deslocação demográfica e à carência de natalidade, esta tradição caiu em desuso, mas quem sabe um dia não se retoma…

III

Aproveitando o ensejo da efeméride do tema desenvolvido, aproveito para, apaixonadamente, desejar felicidades a todos os namorados deste mundo.

Nota:
* Mocidade – todos os solteiros com idade igual ou superior a 20 anos (nada a confundir com mocidade portuguesa).
** Embude – Funil de grandes dimensões.

Orlando Machado

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