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Capela de Santo Cristo das Chagas e São Bartolomeu

02042006(015)

“Esta capela a mandou fazer o abade Jerónimo de Moraes Castro com ajuda das esmolas dos devotos do apostolo Sam Bartolomeu. Ano de 1776”, lê-se textualmente na precisa veraz e concisa inscrição gravada na fachada principal da mesma capela. Nesta data, o padre Jerónimo não era já abade de Caçarelhos por mor de sua voluntária em 1773. Porque de corpo, alma e coração, livre e generosamente nesta abadia continuou a residir e a trabalhar, porque principalmente a ele se deve a erecção desta nova capela, maisjustamentemereceuohonrosotitulode “abade”, que na dita inscrição gravado ficou. Pela figura estilística, “ ajuda das esmolas dos devotos do apostolo Bartolomeu” se designa, sem nomear a família dos Pires Morgados, cujos antepassados tinham sido administradores do pequeno morgadio e dos bens vinculados ao “hospital” ou hospício aqui instituídos por Andrés de Fresno, aí pelo século XVI. Abolidos os ditos vínculos por legislação do Marqués de Pombal, cessaram as organizações que sobre eles impediam. Por isso, “a ajuda das esmolas dos devotos” implica total liberdade e liberalidade na colaboração prestada. Capela de Santo Cristo, CaçarelhosSimultaneamente exclui qualquer obrigação imposta por lei sobre os ditos vínculos, quando e porque já tinham sido oficialmente extintos. A dita “ajuda” foi tão preciosa e bem-vinda que mereceu, como prova de gratidão livremente expressa por mestre e artistas pedreiros, a valiosa e inestimável oferta do belo cruzeiro, definitivamente assente de fronte do antigo “hospital” onde já os Pires Morgados tinham construído a sua casa de habitação. A planta da Capela e a do Cruzeiro naturalmente se presume serem dos mestres canteiros Manuel Gonçalves ou do seu filho José Gonçalves, naturais de Santa Maria de Âncora (Minho). A execução de ambas estas preciosidades artísticas pertenceu à sua boa equipa de artistas pedreiros. O facto de serem minhotos e o de fazerem boa obra por baixo preço, como se comprovou com a reconstrução da ponte de São Joanico (4), concordam perfeitamente com a tradição ainda viva em Caçarelhos, segundo a qual gastaram todo o dinheiro do ajuste na construção dos alicerces da Capela. Com a mesma tradição concorda a origem minhota dos artistas. A denominação desta capela parece ter variado ligeiramente ao longo dos seus 227 anos de existência. No livro de contas da sua confraria ou mordomia, entre 1803 e 1839, vem sempre designada por “capela de São Bartolomeu e Santo Cristo das Chagas”. Desde 1839 até 1884, último abrangido no dito livro, varia a ordem da designação dos dois padroeiros. Capela de Santo Cristo, CaçarelhosUltimamente, por lei do menor esforço, tem-se chamado simplesmente “capela do Santo Cristo”. O seu verdadeiro nome completo e originário deverá ter sido o de “Santo Cristo das Chagas e São Bartolomeu”. A escolha dos padroeiros e a colocação das imagens no único altar da capela pertenceu naturalmente a quem saldou as despesas da obra da mesma e na proporção do respectivo contributo. Por isso, em lugar de destaque, ao centro e em plano superior, o belo crucifixo, quase em tamanho natural, representa a contribuição, vontade, influência e preferência do Abade. A Santa Cruz foi a grande devoção que influenciou todo o Cristianismo a partirdas Cruzadas do Oriente. Simetricamente colocadas, uma de cada lado do altar em plano médio inferior, a imagem da Senhora da Conceição e a de São Bartolomeu simbolizam a proporção da “ajuda” material e das devoções particulares dos “devotos do apóstolo São Bartolomeu”. Efectivamente, desde longa data, o nome deste apóstolo se convertera em topónimo designativo do lugar onde encontrava a antiga orada da Senhora da Conceição, sobre a qual Andrés de Fresno fundara o morgadio e vinculara bens materiais para sustento do “hospital”, a que fazem referência os visitadores desta paróquia durante o século XVII (5). A construção do aqueduto sob o qual correm as águas que descem do São Bartolomeu (topónimo) terá feito desaparecer os últimos vestígios dessa capelinha. O único sinal que actualmente resta é uma cruz tosca de granito assente sobre uma fraga na bifurcação dos caminhos, a poente e pouco distante do aqueduto. Mãos piedosas do outeirense Armando Rodrigues ali a colocaram quando foi expulsa doutra pequena rocha junto do ribeiro… Depressa a nova capela do Santo Cristo das Chagas e São Bartolomeu se tornou lugar de piedade e devoção deste Povo, que sempre acorre em bom número quando ali se celebram actos de culto. Com alguma superstição à mistura, a pequena sineta da capela é freneticamente tangida sempre que nuvem ameaçadora de tormenta desponta no horizonte visual desta gente. O interesse, zelo, respeito devoção e cuidado do seu fundador relativamente à dita Capela não foram tão apreciados por algum dos sucessores dele quanto o foram sempre por este cristão povo de Caçarelhos. No seu orçamento ordinário para o ano económico de 1869, a Junta de Paróquia incluiu, além de outras obras de carácter civil, algumas reparações na igreja matriz e nas duas capelas então existentes. Consistiam em “forrar a capella mor e fazer as portas da igreja consertar as vidraças tanto da igreja e capela do Santo Cristo como d’ambas as sacristias(…) e toda a obra da capella da Santa Luzia”: Este orçamento e plano de obras foi devidamente aprovado pelo Governador Civil do Distrito e pela Câmara Municipal de Vimioso. Na acta da sessão ordinária desta Câmara realizada a 10/08/1869, lese a este respeito o seguinte: “Acordou a Câmara, em aprovar os contratos que a Junta de Caçarelhos fez para várias obras na sua freguesia em 27/06/1869 cujos contractos foram submetidos a esta Câmara e ela os examinou e aprovou.”(6). Em sessão ordinária de 06/06/1869, a Junta de Paróquia de Caçarelhos passou e afixou editais, a fim de “andarem em praça por vinte dias as ditas obras para serem definitivamente arrematadas no dia 27 de Junho”. Em sessão do dia 20 deste, a junta marcou o lugar, a hora e as condições dos pregões para a arrematação de cada obra individualmente. Todas estas obras foram efectivamente arrematadas nesse dia, segundo todas as condições de estilo. Na cópia autêntica dessas actas da Junta de Paróquia se diz que, devidamente convocado, o presidente da Junta a nenhuma dessas sessões compareceu. E mais se esclarece “Passado já sessenta minutos sobre a hora marcada, sem comparecer o Presidente, (…) foi o mesmo mandado chamar pelo Regedor e Vogaes da Junta; e porque a criada do dito Presidente respondeu que ele estava doente, tomou a presidência o vogal mais velho (…) e foi mesmo chamado o vogal do biénio antecedente (para substituição legal do numero de Vogaes da Junta na presente sessão); os quais mandaram abrir sessão para os efeitos legais”(7). O Presidente da Junta era o pároco. Procedeu-se ao pregão das ditas obras, que foram entregues, feitas e pagas. As contas desta Junta de Paróquia foram aprovadas pela Câmara Municipal de Vimioso em sessão de 10/10/1869, nos seguintes termos: “Presentes à Câmara as contas da Junta de Paróquia de Caçarelhos, referentes ao ano económico de 1868/69, as quais aprovou pelas achar nos termos legais”.(8) Dezanove anos mais tarde, em 23/06/1888, D. José Alves Mariz, bispo desta diocese, fez a visita pastoral Caçarelhos. No termo que da mesma se lavrou na secretaria episcopal, e enviada cópia dele ao pároco desta paróquia e por ele transcrita no livro respectivo, se lê o seguinte a respeito da dita capela de Santo Cristo: “… Recomendado ao Revdº parocho e à digna Junta de Parochia que tratassem de promover a conservação da magestosa Capela situada na extremidade da povoação de Caçarelhos, que é monumento de piedade e de boa architectura, e por esses motivos, alemde outros muito obios (sic), bem merece os consertos (sic) de que tanto carece, para não se arruinar”. Mas esses indispensáveis consertos não se fizeram, apesar da recomendação episcopal. Esta recomendação oficial do bispo diocesano, feita vinte anos mais tarde, só vem confirmar as preocupações dos leigos membros da Junta de Paróquia em 1869 atrás referida. Os pássaros que naquele telhado nidificaram e a subsequente caça aos ninhos deles quando a povoação era populosa, os jogos violentos de “relha” e “ferro” que naquele pequeno adro repetidamente se realizaram, o último (des)arranjo das escadas de acesso à entrada principal por obra de desastrados “artistas”, que destruíram a forma de papo de rola aos respectivos degraus, a acção corrosiva dos elementos da natureza conjuntamente contribuíram para a “magestosa” capela carecesse dos bons cuidados e arranjos que felizmente lhe têm sido dispensados nas ultimas duas décadas.