Início > Artigos > Entrevista à cirurgiã Sandra Hilário

Entrevista à cirurgiã Sandra Hilário


2015-11-04_cancro

A importância da fé na luta contra o cancro

Outubro é o Mês Internacional de Prevenção do Cancro da Mama e o dia 30 especialmente dedicado a esta causa, com um fim de semana marcado por muitas iniciativas de sensibilização e um peditório nacional para a luta contra o cancro. A este propósito, entrevistámos a médica Sandra Hilário e recolhemos testemunhos da voluntária Rosa Paz, do ex-doente Artur Reis e do capelão hospitalar Pedro Viva, procurando sinais da ajuda que a fé pode dar na vivência e cura da doença oncológica.

“A fé pode constituir um ganho imunitário”

Sandra Hilário Pires, nascida em Bragança há 41 anos, licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1998 e é especialista em Cirurgia Geral desde 2007. Casada e mãe de três filhos (11, 7 e 4 anos), exerce atualmente no Hospital de Santo André. Desde os tempos de infância e juventude, em que foi coralista e salmista na paróquia natal, a fé acompanhou o seu crescimento e mantém-se viva, na comunidade da Cruz da Areia. Também por isso, sempre ligou a sua atividade profissional à vertente solidária e ao voluntariado médico.
Quisemos saber como encara o seu trabalho médico, nomeadamente nos casos de doença oncológica, e como a sua vida pessoal e espiritual condiciona ou não esse exercício profissional.

Ter ou não ter fé faz alguma diferença para o desempenho da medicina?
Sim, faz diferença, porque permite fomentar a fé também no próximo e lidar melhor com a doença, sobretudo quando a ciência já pouco tem para oferecer.

Na área concreta da oncologia, a comunicação da doença é um momento traumático física e psicologicamente. O facto de ser crente influencia a forma como o faz?
Influencia bastante. A comunicação da doença oncológica não é só difícil para o doente, mas também para o médico. Além de comunicarmos a existência de uma doença crónica, maligna e por vezes fatal, também temos de transmitir esperança e capacidade de tratamento.
A minha fé inspira-me nas palavras escolhidas e no “olhar nos olhos” com que tento chamar os doentes para a caminhada conjunta. Acredito, apesar da minha objetividade e focagem científica, que a cirurgia, a quimio ou a radioterapia isoladas não explicam todos os resultados alcançados. A fé do doente pode constituir um ganho imunitário extra. Se o médico puder estimular essa luz, porque também é crente, tanto melhor.

Que informação considera importante dar?
Nunca dou informação errada, mesmo quando os familiares preferem essa atitude com receio do “ele não vai aguentar”… É importante ir dando informação à velocidade que o doente vai pedindo. Há casos em que a designação “maligna” é omitida porque o próprio se “defende” e prefere não saber. Mas é sempre importante dizer que é uma doença grave, que obriga a tratamento multidisciplinar, a um seguimento frequente, mas que não está sozinho.

E quando há pouca probabilidade de cura?
Nos casos de doença maligna avançada com pouca probabilidade de cura, o momento de transmitir a informação é de facto muito difícil, não só pelo conteúdo mas também pelo fator tempo. Infelizmente, temos consultas com horas marcadas e esta conversa não pode ter “pressas”. Há doentes, sobretudo os mais novos, que perguntam diretamente quanto tempo de vida ainda têm. Nunca faço estimativas, mas não escondo se a probabilidade de cura já estiver ultrapassada, pois considero ser opção e direito do doente poder resolver situações pendentes nesta vida terrena e fazer coisas que gostava e queria antes de partir. Conheço pessoas que casam, viajam, se aproximam de filhos distantes ou perdoam a familiares com quem não falavam. O mais importante é transmitir que se deve ter sempre fé e esperança, viver um dia de cada vez, o melhor possível, e que nós estamos cá para ajudar.

E a reação dos doentes é diferente quando têm fé?
Sim. Obviamente, a palavra cancro acompanha-se sempre de uma enorme tristeza, desânimo e medo. Mas nas pessoas sem fé nota-se maior revolta e desânimo… desespero, até.

Ainda prevalece a imagem do cancro como “beco sem saída”?
Essa é globalmente a imagem do primeiro contacto com a doença. No entanto, é preocupação nossa, desde o primeiro minuto, tentar desmistificar, esclarecer e mostrar os caminhos de que dispomos para lutar contra o cancro.

Como avalia a eficácia da oferta clínica em Portugal?
Em geral, a resposta terapêutica é muito boa e até de excelência. Portugal tem profissionais de saúde de grande mérito e com capacidade técnica muito elevada, o que possibilita um tratamento ao nível das melhores e mais recentes normas internacionais; saliente-se, de forma maioritariamente gratuita.

Há resposta da cirurgia em tempo útil?
Nem sempre é fácil, dado o volume de doentes exceder a disponibilidade horária dos profissionais. Muitos cirurgiões gerais são remetidos para os serviços de urgência dentro do seu horário normal, o que prejudica os tempos de espera. Felizmente, na área oncológica é um pouco diferente, pois a prioridade natural desta doença canaliza todos os nossos esforços para operar em tempo útil, cumprindo a decisão terapêutica.

Como reage quando, ao operar, verifica que o estado do doente é muito pior do que o diagnosticado?
Fico triste, mas de imediato começo a reorganizar mentalmente as opções terapêuticas. Por vezes, é necessário alterar-se a estratégia inicial e usar os vários métodos de tratamento para aumentar a sobrevida do doente. Procuro, depois, explicar-lhe a nova situação clínica, mas sempre transmitindo fé e mantendo aberta a porta da esperança. O importante é o doente perceber que não desistimos de o ajudar, mesmo que já só possamos oferecer o controlo da dor ou medidas de conforto.

2015-11-04_cancro1

Acha que os serviços médicos ajudam a essa perspectiva de “esperança”, nomeadamente, potenciando o papel da espiritualidade na cura?
Depende, em primeiro lugar, de o doente ser crente ou não. Depois, de o médico acreditar ou não na importância da espiritualidade para a cura, ou, pelo menos, ser permeável a outras “armas terapêuticas” além da medicina.
Pessoalmente, nunca travei a esperança num doente, mesmo em fases avançadas da doença. Embora informando a gravidade da situação, alento sempre a fé e não desencorajo a sua luta. Penso que a espiritualidade permite uma vivência diferente da doença e uma melhor qualidade de vida, também para os familiares.

Trabalhando diariamente com tantas vidas marcadas pela dor, desespero e até revolta, onde vai buscar forças para a sua própria resistência?
Não é fácil, mas com o passar dos anos vamos aprendendo a lidar um pouco melhor com a situação. Talvez a nossa força venha do próprio doente… de termos consciência de que precisa de nós. Se eu cruzar os braços em desânimo, como vou conseguir transmitir-lhe esperança e fé? Obviamente, é importante estar bem comigo mesma e com a minha família, mas acredito que Deus também guia e fortifica as minhas atitudes.

Falou em família… até que ponto os problemas dos doentes interferem na sua vida pessoal e familiar?
Essa é a parte mais difícil! É uma atividade profissional que interfere bastante com a minha vida pessoal e, consequentemente, familiar. Tento deixar os problemas no hospital, mas é impossível. Mesmo sem os partilhar, o humor, a atenção e a paciência são diferentes… e há dias menos felizes.
Tento não me resignar, pois quando escolhi ser mãe já tinha enveredado pela vida cirúrgica e sempre entendi ser possível conjugar as duas vertentes. Sei que os meus filhos têm direito a uma mãe presente e feliz; mesmo vivendo as preocupações com os doentes, sou feliz ao ser médica e cirurgiã, pelo que o somatório é forçosamente positivo.

E com a sua vida espiritual e religiosa… todo esse mundo doença e sofrimento não a faz colocar em causa a fé em Deus?
De facto, não sou imune a repensar a minha fé e a minha confiança em Deus, quando me cruzo com vidas de grande sofrimento, tristeza e isolamento, que cronicamente dão cambalhotas no mesmo sentido… o da dor. Mas, simultaneamente, sinto necessidade de continuar a alimentar essa fé.

Como médica e mulher de fé, qual o sentido que encontra para a doença, o sofrimento e a morte?
A doença resulta do desequilíbrio de uma balança imunológica que, quando não se harmoniza, culmina em dor, sofrimento e morte. Talvez a doença ou o sofrimento constituam, por vezes, o ponto de maior aproximação a Deus, pois obrigam a pessoa a repensar os seus valores e prioridades. Funcionará como uma aprendizagem, uma escola de fé imbuída no Espírito Santo…

Termino pedindo-lhe que complete a frase: “Deus é…”

… Luz, Esperança, Inspiração e Porto de Abrigo.

Fonte: Diocese Leiria/Fatima