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Para recordar


O CRUZEIRO DE CAÇARELHOS

Erguido em 1777, o cruzeiro de Caçarelhos tem duzentos e vinte anos.Apesar das marcas deixadas pelas inclemências do tempo e pela incúria dos homens, lá permanece Integro, aprumado, imóvel, sempre de braços abertos para receber quantos o visitam ou lhe imploram divinos favores.Humildemente solene e quase majestoso, é simplesmente belo.
Além de constituir um apodíctico documento da história local, simboliza e perpetua a milenar devoção eclesial à Santa Cruz, ainda tão viva e actual como a concorrência de fiéis e devotos aos santuários de Cabeça Boa ( Samil ), Outeiro e outros que a evidenciam.No campo da arquitectura/escultura é uma das mais preciosas jóias que integram o rico e variado acervo cultural transmontano, uma valiosíssima raridade mal conhecida, pouco apreciada e cuidada.
“Cruzeiro mais belo de todo o Distrito, monumento Interessante” lhe chamou António José Teixeira no seu opúsculo “Em Volta de uma Espada”, publicado pela Câmara de Miranda em 1931. “Magnífico cruzeiro mais lindo do distrito” (de Bragança) o consideraram os autores da excelente obra “À Descoberta da Portugal”, editada pelas conceituadas Selecções do Reader’s Digest em 1983.Todo construído de puro e fino granito daquela localidade, este CRUZEIRO constitui um conjunto arquitectónico e escultural barroco do último período, o chamado joanino português (D. João V).Na direcção dos pontos cardiais, quatro lanços de escadas dão acesso ao patamar do CRUZEIRO. Assentes em maciço de alvenaria, foram originalmente trabalhados a pico fino que lhes modelou os degraus em forma de “papo de rola”.

O natural declive do terreno obrigou a que o lanço oriental ficasse com três degraus e o ocidental com cinco.O patamar é um quadrado com 117 centímetros de lado. Dele emerge o pedestal; sobre este assenta a coluna, que suporta a cruz. A altura total do monumento, medida desde o patamar ao topo da cruz, ultrapassa os cinco metros, que são concretizados por seis blocos granitosos habilmente cinzelados e decorados.O PEDESTAL mede 120 centímetros desde o soco, que é quadrangular com 93 centímetros de lado, até à cornija cujo filete é de 103 centímetros. O tronco ou corpo do pedestal apresenta a forma de prisma quadrangular regular com 66 centímetros de aresta da base e 1 metro de aresta lateral. No centro das cartelas de três das suas quatro faces, ficou inicialmente gravada em algarismos árabes a data da sua construção ainda perfeitamente legível. A cartela ocidental tem as letras iniciais” AW. DI. “, Abreviatura de” ANNO DOMINI cuja tradução literal em português é ANO DO SENHOR”. Rodando da esquerda para a direita, na cartela meridional vem esculpido o número 17 e, na oriental, o 77.
Obviamente que o conjunto sequencial quer dizer” ano do nascimento de Cristo de 1777. “Um floral estilizado preenche e adorna toda a face setentrional, que nunca teve qualquer inscrição.A COLUNA, primorosamente decorada, com uns 3 metros de altura, é a parte mais graciosa e rica, aquela que mais elegância e solenidade confere ao monumento. Em conformidade com os parâmetros da boa arte clássica, também esta coluna começa por uma base, que é de forma ática, à qual se segue um fuste diminuído, por adelgaçar de baixo para cima, e termina num lindo capitel.Esta base é constituída por um plinto quadrangular de 66 centímetros de aresta e por dois toros entremeados por uma escora de 22 centímetros de raio, a média da grossura de toda a coluna.O fuste, parte central da coluna, tem o terço inferior mais bojudo e bem decorado, com uma retícula de tipo geométrico constituída por losangos e elipses em filas horizontais alternadas. Os outros dois terços vêm ornamentados com caneluras, que são duplas no terço médio e simples no superior.Um capitel compósito corint6-jónico, muito bem ornado com folhas de acanto estilizadas, remata a coluna.
A CRUZ, que é romana e de braços quadrangulares com arestas rebaixadas, mede pouco mais de 1 metro de altura e constitui um monobloco granítico com o crucifixo.A notória desproporção entre as avantajadas medidas da imagem e as diminuídas da cruz que a sustém não se deve a qualquer imperícia artística. Foi clara intenção do escultor evidenciar a imagem de Cristo. Por isso esta E relativamente grande. Sob o ponto de vista religioso, é a peça mais importante de todo o monumento. Tudo ali para ela converge Pode mesmo dizer-se que o crucifixo está para o sentido religioso como a coluna está para o sentimento do belo.Nesta, como em qualquer obra de arte religiosa cristã, a decoração não é algo desnecessário, inútil ou supérfluo.É antes um bom processo de conduzir a alma até aos átrios da fé e do transcendente. Todos os monumentos e obras de arte têm história.Este CRUZEIRO também tem a Sua, uma história cujos pormenores se diluíram na distância do tempo. Um misto imaginação e vaga lembrança coabitam em nubilosa e ancestral recordação que sobrevive no imaginário popular quase dissolvido no inconsciente colectivo. Coexistindo com esta e com ela interpenetrando e por vezes confundir persiste uma teimosa tradição popular, todos conhecida e aceite na localidade, que nos conservou alguns preciosos dados históricos exactos e concretos.Na falta de documentos escritos directamente referentes ao CRUZEIRO, excepto a data incisa no seu pedestal, é essa tradição, esclarecida e confirmada por outros dados históricos desse tempo, nos permitem ampliar o nosso actual conhecimento da verdadeira história de tão monumento.Além da data e lugar de nascimento, podemos conhecer também os artistas que construíram, os patronos que lhe custearam as despesas.
O significado sócio-religioso, as causas próximas e remotas da sua erecção.De facto, o mesmo estilo joanino comum ao CRUZEIRO e à capela de Santo Cristo das Chagas e São Bartolomeu, a proximidade sequencial das suas datas, a inscrição gravada no frontispício da dita capela e o local de implantação do CRUZEIRO estão de pleno acordo com a referida tradição popular. É, pois, certo que ambos os monumentos são obra dos mesmos artistas, que estes foram pagos pelos dois padroeiros, isto é, pelo abade Jerónimo de Morais Castro e pelos “devotos de São Bartolomeu”, que o CRUZEIRO foi ofertado pelos artistas aos patronos e pran¬tado à porta deste(s) em sinal de profunda. gratidão pela generosa recompensa com que os brindaram no final da obra da capela e pelo facto de os terem salvado das dificuldades económicas com que os iria vitimar um inicial orçamento mal calculado, que se esgotara pouco depois da execução dos fundamentos da empreitada.O padre Jerónimo de Morais Castro, aos 27 anos de idade, foi nomeado pelo papa Clemente XII, em 20/02/1733, abade de Caçarelhos, titulo que conservou pelo menos até 1774, segundo documentos autênticos que conheço. É possível que, nessa data, tenha abdicado a favor do Padre Bento José de Morais Castro, provavelmente familiar seu, o que lhe facilitaria aqui permanecer e continuar a patrocinar a conclusão da obra, até 1776. Este padre Jerónimo foi, portanto, abade desta freguesia desde 1733 até 1774, quatro décadas durante as quais se construíram os três melhores monumentos religiosos que possuímos: a igreja matriz, que tem as datas de 1752 e 1755, a capela São Santo Cristo e o CRUZEIRO. É digno de toda a nossa gratidão.Temos para com ele uma dívida moral de lhe perpetuar a saudosa memória, ao menos actualmente, na toponímia urbana local.A circunlocução “devotos do apóstolo São Bartolomeu” é uma espécie de antonomásia metonímica que parcial e intencionalmente oculta um verdadeiro patronímico, provavelmente por expressa vontade dos interessados ai visados.
É que, de facto e em conformidade com o direito vigente no Antigo Regime de posse e uso de propriedades que permaneceu quase até ao final do século XIX, quando o novo Regime saldo do Liberalismo aboliu os vínculos adstritos a capelas e morgadios com a supressão destes, a família Bartolomeu manteve na sua varonia a administração e posse parcial dos chamados bens de mão morta, que tinham permanecido indevisos e como tais foram transmitidos a sucessivas gerações, desde André de Fresno, no século XVII.Assim se compreende que, nesse tempo, fosse a família mais abastada, influente e colaborante de Caçarelhos.A pequena inscrição gravada na frontaria da dita capela é tão concisa como precisa. A palavra esmolas inserida no contexto “com a ajuda das esmolas dos devotos de São Bartolomeu”, esclarece o género de colaboração por estes prestada. Não se trata, pois, do cumprimento de qualquer obrigação ou prestação imposta por lei, mas sim de oferta livre e espontânea, exclusivo efeito de generosa liberalidade. E essa atitude explica, por si só, a colocação do cruzeiro no lugar fronteiriço à casa de habitação da dita família. Tal não exclui, porém, a simultânea proximidade à primitiva casa da abadia; antes confirma a tradição local que a situa nas imediações da actual igreja matriz.
Fosse qual fosse a importância da actuação de qualquer dos referidos benfeitores na construção dos três citados monumentos religiosos – igreja, capela e CRUZEIRO – sempre estes foram considerados totalmente públicos, pois jamais alguém se arrogou algum direito particular ou privilégio pessoal ou familiar sobre qualquer deles.Os duzentos e vinte anos da capela do Santo Cristo e São Bartolomeu, em 1996, ficaram assinalados por indispensável arranjo feito no seu altar, que foi segurado no muro posterior do edifício e adaptado a actuais normas litúrgicas da celebração da Eucaristia. Um pequeno grupo de pessoas ligadas afectivamente a este templo público, e que puderam contar com o dinamismo dos dois membros leigos da Comissão Fabriqueira, tiveram o prazer de custear esse melhoramento.O ducentésimo vigésimo aniversário, que este magnífico CRUZEIRO completa durante o corrente ano de 1997, deverá ser festejado e presenteado por todos quantos a esta povoação se sentem ligados por nascimento e/ou residência e também por laços familiares, culturais, afectivos ou quaisquer outros.
Múltiplas, fortes e variadas são as razões que tal impõem.Antes de tudo, porque é nosso. É de todos. E o mais público de todos os edifícios públicos. A todos igualmente pertence sem que alguém sobre ele tenha qualquer privilégio senão o de mais o estimar e melhor o cuidar. Toda a gente a ele tem livre acesso. Nunca teve qualquer resguardo ou vedação. Situado num cruzamento de ruas e no centro geográfico da povoação, desde longa data se tomou sala de visitas do lugar, ponto de encontro de moradores, sobretudo da mocidade dos tempos de toca o bombo, a caixa e gaitade-fole, anteriores a cafés e televisão. Por ali passou praticamente toda a vida da aldeia. Ali se discutiram e decidiram os problemas importantes da povoação.Depois, porque todos mais ou menos teremos, de algum modo, contribuído para a sua de. gradação. Ninguém aqui terá vivido que por aquelas escadas não tenha alguma vez passado.E também porque é uma jóia sacra do mais alto preço, um tesouro que os nossos antepassados deixaram à nossa guarda e responsabilidade. É por isso duplamente sagrada para nós.
Finalmente, por não podermos esquecer que é símbolo e síntese da nossa identidade sócio-cultural-religiosa, indelével documento da nossa história, exlibris da nossa terra, companheiro inseparável e presença reconfortante de todos os momentos, bons e maus.É de bom tom oferecer aos aniversariantes prendas agradáveis, valiosas, dignas e úteis.O nosso magnífico CRUZEIRO está a precisar de criteriosa limpeza geral e da remoção de acréscimos destoantes. A longo prazo, é também de elaborar um bom plano de recuperação e embelezamento de todo o seu espaço envolvente, a fim de corrigir erros do passado recente e evitar outros possíveis no futuro, sempre salvaguardando interesses particulares. A curto prazo e quanto antes, impõem-se o arranjo das escadas, que já acusam uma certa deterioração. Será, para já, a melhor prenda a oferecer, com a vantagem de ela reverter a favor dos oferentes.Como só a união faz a força, todos por um e um por todos na preservação do nosso CRUZEIRO, porque preservamos a nossa própria identidade sócio-cultural. Se todos os caçarelhenses quiserem e as autoridades ajudarem a todos os níveis, alguns mecenas surgirão também para ajudar a transformar um sonho em realidade. Porque, “quando Deus quer e o Homem sonha, a obra nasce”.

Francisco Formariz