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Padre Doutor Agostinho Alberto Rodrigues


(05/03/1931 – 25/02/1991)
Jovem o conheci em Caçarelhos, quanto este numeroso, simpático e prestimoso grupo familiar para aqui se transferiu e de raiz casa de habitação construí com intenção por cá outrora se radicaram também os mais próximos ascendentes, por linha materna, do padre doutor Agostinho Alberto Rodrigues. Por estas e outras razões acrescidas da aura de mérito e simpatia que também entre nós mereceu, conquistou e usufruiu, aqui se inclui no conjunto dos presbíteros de Caçarelhos.

Nasceu a 05 de Março de 1931 em Outeiro (Bragança), vila e sede de concelho até 1853, terra da naturalidade do pai e da residência da mãe e dos avós dele. Passou a adolescência em Sanhoane (Mogadouro) donde, em 1947, toda esta família se transferiu para Caçarelhos, onde nascera a D. Ernestina. Julgo ser aqui mais curial dar a palavra ao próprio que bem a merece e melhor a expõe. Assim ele escreveu:

“Eu era um garoto endiabrado, como tantos outros. Nasci numa família numerosa, o sexto de nove irmãos. Minha mãe Ernestina Rosa Moreno, sobrinha de Augusto Moreno, o conhecido autor do dicionário de língua portuguesa, era professora primária – uma boa professora – o meu pai, Armando da Assunção Rodrigues, com a quarta classe, era pessoa inteligente, que fazia de tudo um pouco desde pedagogo a enfermeiro e agricultor. Era muito viajado, tinha estado no Brasil os anos da sua juventude. (…) A minha mãe era profundamente religiosa. O Meu pai, juntamente com o dinheiro, tinha trazido do Brasil uma boa dose de anticlericalismo. (…) Naturalmente os meus pais, juntamente com o Padre da Freguesia, eram as pessoas mais conceituadas da aldeia. (…) Representavam a civilização! Até liam o jornal! (…) Os meus pais não eram ricos. Sobretudo quando a família cresceu (…) foi preciso fazer contas para que o vencimento da minha mãe e os produtos da terra trabalhada pelo meu pai chegassem para equilibrar o barco. E chegaram até para repartir com outros mais carenciados.
Foi aqui que nasci, cresci e aprendi a ter sentido do outro a começar pelos meus irmãos(…) que faço questão de nomear a começar pelos mais velhos: Emídio, Maria Amélia, Ondina, Cândida, Ernestina, eu era a seguir, Lucília, Raul e Alfredo. Um lindo Clã (…)
Também se rezava em minha casa. À noite ao serão nas longas noites de Inverno, era o terço presidido algumas vezes por uma velhinha minha vizinha, que nos cansava com as suas intermináveis devoções (…)
Naqueles tempos e naquelas terras ignoradas, estudar era um luxo. Com facilidade fiz a instrução primária com a minha mãe, a única professora da aldeia. Eu gostava de estudar; mas também gostava muito de brincar e de pregar partidas aos companheiros, ou fosse  a quem fosse, e quando alguém se queixava, a minha mãe  não mas poupava. Posso gabar-me que fui o aluno mais castigado na escola. Claro que eram bem merecidas. Falo nisto apenas para prestar homenagem àquela que foi uma grande professora e uma grande educadora”.
Por influente informação de um jovem de Sanhoane, aluno do seminário de Tomar, a respeito de si próprio escreveu o padre doutor Agostinho: “Assim a minha vontade de ir para o Seminário  das Missões ia crescendo de dia para dia e já tudo me parecia irreversível. Tanto mais que, para falar com franqueza e vendo as coisas como as vejo hoje – nessa altura nem pensava nisso – não tinha grandes alternativas. Eu gostava de estudar, mas os meus pais não tinham dinheiro para me mandar para o liceu ou mesmo para o seminário diocesano, como não tiveram dinheiro para mandar estudar os meus irmãos antes de mim. Restava-me esta saída que, em boa verdade, vinha de encontro aos meus desejos: ir estudar, sem gastar quase nada para o seminário das missões. (…) Quando os papéis para a minha entrada no Seminário estavam em bom andamento, uma  carta assinada pelo padre Amândio Lopes,  um missionário da terra de Vimioso, veio dar-me ainda mais ânimo e radicar-me ainda mais na decisão tomada”.
No dia 29/09/1942 partiu para Tomar onde, no antigo e célebre Convento de Cristo, fez os primeiros anos do seminário.
A autobiografia do padre doutor Agostinho continua assim ” A decisão que tomei em criança foi preciso reassumi-la aos catorze, aos dezoito, aos vinte e um e aos vinte e cinco anos conforme os problemas, os ideais e as concepções de vida em cada idade”.
“Quando cheguei à idade adulta houve duas ocasiões concretas em que tive de assumir o meu futuro com toda a consciência e com toda a responsabilidade: aos vinte e um anos, antes de fazer “a primeira consagração ao apostolado” e aos vinte e cinco, antes de dar o “passo definitivo” para o sacerdócio antes de receber o subdiacono. Não foi fácil. É sempre doloroso jogar a vida e tomar um rumo definido, mesmo quando se trata de abraçar uma causa nobre. Tomar sempre difícil e doloroso. Para mim foi. (…) A minha decisão, porém, não foi às cegas nem sem razão”. (…)
Éramos ainda alunos, ele meais novo e no seminário das missões, eu já estudar  Teologia no seminário diocesano deBragança. Desde que em Caçarelhos nos conhecemos fomos sempre cristãmente bons amigos. Nas férias do Verão de 1947 ou 48, confidenciou-me alguma hesitação e dúvida…
Aconselhei-o o melhor que soube e pude. Pareceu-me que bonança e calma tinham voltado àquela nobre e bela alma. Convivemos normalmente nessas e noutras férias. Mutuamente nos ajudámos. O pároco, sendo competente e cumpridor, à maneira e uso desse tempo, mantinha connosco distancias mais ou menos semelhantes ás dos bispos  com os seus presbíteros…
Além de inteligente, o Agostinho cantava muito bem. Com muita competência e paciência dele, devido à minha incapacidade musical, muitas vezes em casa dos meus pais ensaiámos a missa “manter amabilis”, que cantámos na festa de Nossa Senhora da Assunção em Agosto e na igreja matriz de Caçarelhos. Era mordomo António Ramos (Fevereiro). Segundo generalizada mentalidade então corrente, embirrava e teimava que não queria nem permitia que as “Catequistas”  cantassem a missa no dia da festa… Eram a fina flor da mocidade feminina desta aldeia nesse tempo e bons serviços generosamente prestavam à Igreja. Em nome da velha tradição, mais gente ainda estão assim “misoginamente” pensava e falava… Antes do mordomo de Nossa Senhora da Assunção combinar com o pároco, com quem perfeitamente se não entendia, veio ter comigo para comunicar tal intençao. Comprometi-me  a satisfazer-lhe pacificamente a vontade, constando com os óptimos préstimos musicais do Agostinho para cantarmos a “missa mater amabilis” que as “catequistas” não conheciam. Encostado a ele, eu lá fui acompanhando… conforme pude e soube… Tudo correu ordenada e pacificamente… O mordomo ficou satisfeito… Se não convenceu, sua birra venceu… Calou e pagou porque também a solene missa a seu gosto e contento correu..
Retomando a palavra do padre doutor Agostinho a seu próprio respeito:
“Quando com certa violência, acabei por me decidir, fez-se em mim uma grande bonança. Foi assim que em 1953 fiz a primeira consagração ao apostolado como membro da sociedade missionária, e em (30 de Maio) de 1957 fui ordenado sacerdote”.
Em 1958 foi escolhido para frequentar em Roma a Universidade Gregoriana, onde se formou em Filosofia, facto que naturalmente por humildade omite nestes seus breves dados biográficos.
“Afazeres” que não foram assim tão pequenos, segundo a fonte que vou seguindo e a seguir transcrevo:
“Em 1968 foi eleito para fazer parte da Direcção Geral. E assumiu o cargo de director e principal redactor da Boa Nova e outras publicações. Durante  muitos meses foi alma do programa BOA NOVA na Rádio Renascença. -No seminário da Boa Nova, em Valadares, foi professor e reitor. Deu Aulas de Religião e Moral na Escola Secundária, que fica próxima. De 1984 a 1986 serviu a Igreja de Angola trabalhando na paróquia de Sant’ Ana e ensinando no Seminário Maior. De novo os superiores o chamaram para servir o Instituto como director da BOA NOVA e da CRUZADA MISSIONÁRIA e para orientar os serviços de animação missionária. Pela terceira vez os membros  da Assembleia Geral, no Verão o escolheram para 2º Assistente do Superior Geral.
P. Agostinho Rodrigues – que era poeta, orador e artista – escreveu muito.
Publicou alguns livros (Oração Jovem, A Minha Fé, Adoráveis Rebeldes, Jogaram a Vida, Modelos e Intercessores) além de bom número de opúsculos. Traduzio outros. E tinha grandes projectos.
“Atingido de mal grave, baldados os esforços feitos, animado por familiares e amigos, deslocou ao Brasil, na esperança débil de melhores dias. Ali acabou a sua carreira, falecendo em São Paulo às primeiras horas de de 25 de Fevereiro de 1991, uma semana antes de completar sessenta anos. E ali quis ficar sepultado”
Em Cucujães, a 02/12/1990, bem consciente do seu melindroso estado de saúde escreveu o sentido, exemplar e eloquente Testemunho que seguidamente se transcreve:
“Quando eu morrer não quero que ninguém chore. (…) Quero que haja alegria, cânticos e aleluias, pois que o missionário deve ser alegremente recebido na casa do Pai.
Quando chegar ao meu termo, nesta vida sei que sentirei um vazio enorme por ter realizado tão pouco dos sonhos que acalentei, na construção do reino de Deus.
Mas também sei que Deus não precisa de ninguém e que outros farão melhor que eu.”
“Sinto-me tranquilo – e feliz – ao pensar que gastei a vida ao serviço dos interesses de Deus – os pequeninos, os jovens, os pobres, os mais carênciados.”
“Mas sinto-me inquieto por ver que não dei testemunho suficientemente convincente para que muitos jovens dedicassem as suas vidas como missionários, na Sociedade Missionária da Boa Nova.
… Se lá no céu se puder fazer alguma coisa pelo Reino de Deus na terra, eu não me vou esquecer. Pedirei a Deus que muitos jovens queiram ser missionários, para que o reino das bem-aventuranças seja cada vez mais uma realidade neste mundo”.

O padre doutor Agostinho Alberto Rodrigues, da Sociedade Missionário da Boa Nova, foi admirável jóia de homem, um poeta e um santo com alma de cristal e inteligência fulgurante num belo corpo humano frágil, que demasiadamente cedo foi incapaz de resistir aos males físicos a que vulgarmente chamamos doenças. Astro brilhante do sacerdócio católico, qual estrela cadente em noite de Verão, deixou atrás de si um raio de luz, que infinitamente poderá ultrapassar todos os seus humanos anseios apostólicos e missionários. Deus o sabe…
Por também ser considerado natural de Caçarelhos pela sua ascendência por linha materna, pelo respeito, consideração e amizade que nos merece aqui lhe dedicamos estas por nós sentidas e por ele merecidas notas biográficas.

Fonte: retirado do Livro “Caçarelhos, Apontamentos Monográficos” de Francisco Manuel Formariz