A história de um selo

Em 1989 foi emitido uma colecção de selos sobre o tema “Arquitectura Popular”, Selos desenhados por José Luis Tinoco. Foi impressa uma tarja fosforescente por OFFSET / INCM, gravados em Esmalte “F”/100 MC (Espesso). Denteado em 12 por 12mm, com 29mm de largura e 20mm de Altura.

A 18 de Fevereiro de 1989 saiu em Diário da Republica o 5º Grupo de Emissão, entrando em circulação a 8 de Março de 1989 e mantendo-se até 31 de Agosto de 1995 . Deste quinto Grupo faziam parte os selos que apresentavam as Casas Transmontanas, Casas da Beira Interior, Casa Saloia.

Destacando o selo das “Casas Transmontanas” sabe-se que as casas apresentavam “um aspecto “másculo” e sóbrio utilizando a pedra que aparece mimetizando a rocha de onde foi retirada, apresenta-se sem ornatos mas com um aspecto bastante digno”. Este Desenho, um dos muitos pintados por “José Luis Tinoco“, inspirado na imagem presente na figura, que está arquivada na Torre do Tombo.

O que muitos não sabem é que esta casa era e é de Caçarelhos. Situa-se propriamente logo após a escadaria da Igreja, mesmo à frente dos vossos olhos. Casa que pertencia ao Senhor Américo e ao Senhor Francisco Machado (o meu Avô).

Este conjunto de casas serviu como referência às “Casas Transmontanas”.Relembrando a dos meus avós paternos, tal como descrito na obra de Brian Juan O´Neil “Proprietários, lavradores e jornaleiras”:«As casas antigas são construídas de pedra, sendo os interiores sombrios. As paredes e os tectos das cozinhas são normalmente escuras como breu.As lareiras estão acesas grande parte do ano para cozinhar e aquecer e, de Novembro até Março, penduram-se por cima da lareira grandes quantidades de porco salgado e enchidos para serem fumados.As casas estão tão juntas que se perde a privacidade; com o simples abrir das portas da frente mostram-se imediatamente a qualquer passante as cozinhas e as salas.Os aposentos ficam no andar de cima e em baixo os estábulos, as arrumações de produtos agrícolas ou a adega».

Tal como está escrito na Pagina A Casa Típica Transmontana:“A montanha ofereceu ao homem transmontano a rocha, alvenaria de xisto ou granito, que foi desde sempre a matéria-prima nobre e farta de que se serviu para construir a mais modesta casa rural mas também os solares sumptuosos e apalaçados.Subia-se ao primeiro andar pelas escaleiras exteriores de granito, ligadas à rua apoiando-se no corrimão.

A casa do lavrador mais abastado era rodeada pelo espaço curral. Neste espaço, que rodeava a casa situava-se o cabanal, onde se guardava a lenha retirada do sequeiro, já partida e livre da chuva, e as alfaias agrícolas.Era ainda o curral o lugar do recreio dos animais. Tinha uma grande fachada ou porta carral, de pelo menos três metros de altura para passarem livremente os carros de lenha ou de feno. É este amplo espaço que o lavrador chama os roussios.O espaço que ficava em falso sob as escaleiras, era aproveitado para o galinheiro. Ficava um buraco na parede para as galinhas entrarem, ao qual tinham acesso por uma tábua. Daqui surgiu a expressão popular de, todos os dias ao pôr-do-sol “ir fechar o buraco das pitas”.Toda a parte superior da casa assentava sobre grossas traves.

Do cimo das escaleiras, passava-se à varanda de madeira, rodeada por um corrimão e situada geralmente a sul ou a nascente. É o espaço característico da casa que está a desaparecer nas novas construções. Ajudava a varanda a defesa dos ventos agrestes e regelados e do calor escaldante. Nela se secava a roupa estendida numa cana, se apanhava o sol, se expunham os cacos das malvas, craveiros e manjericos, e nas canículas se podia descansar a sesta e cerar ao fresco. Por isso, era larga para caber a mesa e os bancos, e a camarada de segadores, e coberta com a continuação do telhado.No bordo, o seu pé direito não chegava, ás vezes, a dois metros de altura, para melhor resguardo.

Os beirais muito salientes, interiormente forrados com tábuas, são apoiados em pilares de madeira, espaçados. Há os balaústres de pedra trabalhada, ou simplesmente lisos, com tabuinhas cruzadas, num reticulado horizontal e vertical, sobreposto obliquamente, formando losangos, de grande efeito decorativo.A porta da entrada dava para a cozinha. Tinha mais um postigo (abertura móvel, na parte superior da porta para deixar sair o fumo e evitar a entrada do frio).A cozinha é o aposento maior e principal da casa. É necessário que seja grande e espaçosa para receber os “obreiros”, e toda a família na festa de Natal e na matança do porco.

A lareira é rodeada de grandes e enegrecidos escanos de castanho, que lhes dão o aconchego e bem-estar, à volta do lume nos medonhos serões de Inverno.Sobre o trasfogueiro caem grossos troncos, em combustão viva e estaladiça.Os potes de ferro, a caldeira de cobre e a borralheira, o badil e as tenazes são elementos presenciais. A saída do fumo era facilitada por um pequeno cabanal, erguido no declive do telhado.Na trave do fumeiro penduram-se os presuntos para se ultimar a cura ao fumo.O almário ou louceiro era enfeitado com os jornais rebicados e colados com o miolo do pão.Era o ostentatório das peças artesanais de uso diário, na cozinha.Por detrás da lareira, muitas vezes, surgia a boca do forno, para se cozer o pão e a borralheira que armazenava a cinza a utilizar, depois na barrela.O colmo ou a telha vã, fabricada artesanalmente na vizinhança, cobriam a casa.As janelas eram encaixadas com o “espigão” na parede, seguras com a tranca, e com um banco de pedra no interior para as pessoas se sentarem às janelas, e exterior para se colocar o caco do craveiro ou do manjerico.O alçapão facilitava a penetração nos baixos da casa, sem sair à rua, ou era a entrada da tulha.

Na velha arca de castanho, no canto da cozinha, guardava—se a carne de porco cozida, o pão centeio da mesa… e às vezes servia de mesa, para as refeições familiares.”

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