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B Fachada canta a tradição entre Lisboa e Caçarelhos

Tiago Pereira, realizador, seguiu B Fachada até às cantadeiras transmontanas. É um filme e um manifesto.
O que temos é isto: um músico de viola em punho calcorreando Lisboa, tocando às portas da Sé, tocando num banco de mármore enquanto uma velhota, a seu lado, acena a um conhecido que passa. O que temos é isto: esse músico de viola em punho, encostado a um galinheiro em Trás Os Montes e uma mulher encurvada que limpa o galinheiro e que à saída larga um sorriso para a câmara. O que existe em “B Fachada – Tradição Oral Contemporânea” é um músico lisboeta transformado em andarilho. Canta as suas canções na sua cidade, viaja até às aldeias de Caçarelhos ou Algoso para as mostrar a quem lá vive e regressa com as músicas que ali lhe ensinaram.
Em Caçarelhos ouvem-no com atenção para aprender as novas melodias, em Lisboa acham que são dele as canções seculares que aprendeu em Trás Os Montes.

B Fachada, músico que conhecemos em 2008 através dos EPs “Sings The Lusitanian Blues”, “Mini CD Produzido Por Walter Benjamin” e o magnífico “Viola Braguesa”, serve como ponte entre esses dois universos. Dirá ao Ípsilon ser “como um sapateiro”: “quero fazer canções como o sapateiro faz sapatos e sei que vou passar a vida a fazer uma data de sapatos para caber nos pés das pessoas, apesar de estar sempre a fazer a minha ideia de sapato”. Tiago Pereira, por sua vez, foi o realizador que construiu a ponte para Fachada, reflexo de um interesse pela exploração e reflexão sobre a tradição musical popular que contamina o seu trabalho – servem como exemplo “Onze Burros Caem de Estômago Vazio”, filmado no planalto mirandês, ou “Arritmia”, sobre o Festival Andanças.
Agora, no final de “B Fachada – Tradição Oral Contemporânea”, que estreou sexta na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, vemos escrito: “Este filme nasceu a partir do momento em que, ao ouvir o trabalho de B Fachada pela primeira vez, senti uma proximidade gigante, como se toda a vida tivesse conhecido aquelas músicas. E elas fizessem também parte da tradição oral”. Tiago Pereira, que se dedica à recolha musical etnográfica há cinco anos e que escreveu há tempos um mini-manifesto intitulado “Kill Giacometti” – “tradição é transmissão e não sacralização de espaços, velhos ou reportório”, lia-se -, descobriu em Fachada o veículo (e cúmplice) para revelar o seu olhar sobre a tradição e a música tradicional. Ao Ípsilon, dirá que a premissa do filme é esta: “Como é que um tipo da pop, que faz música assim há um ano, consegue de repente fazer os outros acreditar que as músicas que aprendeu [em Trás Os Montes] são dele?”. Ou melhor, emendará mais tarde, a premissa pode também ser a seguinte: “Desmontar a história de que a tradição é uma coisa rural. Por isso é que o filme está tanto no campo quanto na cidade. Tradição é transmissão. Não vamos andar à procura do purismo onde ele não existe”.
Fachada e os “velhinhos” todos Filmado entre Agosto e Dezembro de 2008, com uma hora de duração, “Tradição Oral Contemporânea” vive da música que B Fachada toca e aprende, vive dos locais e das pessoas com quem o vemos tocar. A dar à viola num comboio suburbano enquanto o sistema sonoro anuncia “próxima estação, Santo Amaro de Oeiras”. Sentado num banco de pedra do Rossio, rodeado de gente dele alheada enquanto interpreta “Dona Filomena”, canção que aprendera dias antes em Trás Os Montes. E, antes disso, B Fachada em Caçarelhos trauteando uma música de verso único – “já toquei na Zé dos Bois, na Zé dos Bois, na Zé dos Bois” -, ou a aprender essa que tocará no Rossio com Adélia Garcia, a outra protagonista do filme e cantadeira que, na década de 1960, Michel Giacometti fez questão de conhecer para as suas recolhas.

A montagem de Tiago Pereira, viajando entre os dois universos, expondo-os em paralelo ou em sobreposição explora uma equivalência: como se, apesar das diferenças (de cultura, de cenário, de experiência de vida), a música urbana e moderna de Fachada nascesse do mesmo impulso que a música rural e ancestral cantada por Adélia Garcia. “Aquilo que primeiro me chamou a atenção no B Fachada foram as letras. Jogavam com a ideia de incoerência e tinham um surrealismo que faz parte da tradição popular, quer a das cantigas, quer a da [artesã barrista barcelense] Rosa Ramalho”. Continua: “Na biografia do António Variações [‘Entre Braga e Lisboa’], da Manuela Gonzaga, Vítor Rua diz que Giacometti foi à procura dos velhinhos com um gravador, enquanto o Variações já tinha os velhinhos todos dentro dele e, de repente, transformou aquilo tudo. O Fachada não tem os velhinhos todos dentro dele, mas a abordagem é semelhante. A tradição oral é transmitires o que vives, passá-lo de geração em geração, alargá-lo e criar combinações infinitas”. Chegamos assim a uma canção de “Viola Braguesa”, precisamente “Tradição”, que surge como basilar em “Tradição Oral Contemporânea”. A transcrição que segue é longa, mas obrigamo-nos a fazê-la para melhor acompanhar o que se segue. Eis os seus primeiros versos: “Nestes dias tive tempo p’ra pensar/ Se a tradição estará mesmo para acabar / E cheguei à conclusão fundamental / Que nesta história da canção tradicional / É bonita ouvi-la vir de alheia mão / Mas mais bonito ainda é vir do próprio coração / Se depois tem que resultar num bem comum / Isso não nos pode pôr problema algum / Que o colectivo que há em cada um de nós / Não tem, porra, apenas uma voz”.
Foi essa canção e a gravação do vídeo que a acompanha que desencadeou o filme. Quando Tiago o disponibilizou na net, tornou-se um fenómeno e, por ser construído a partir das 52 vezes que Fachada tocou a canção em 52 locais diferentes do Andanças, foi visto como homenagem ao festival. Precisamente o contrário, explica Tiago: “A ironia era subtil e muitos não a perceberam. A verdade é que aquele é um festival igual aos outros, com a diferença de os músicos não serem pagos e não serem aceites patrocínios”. B Fachada prossegue: “Qualquer coisa serve para eu fazer uma canção. Na Flor Caveira [a editora que lançou “Viola Braguesa”] dizem que se deve ter cuidado em ter-me como inimigo, porque sempre que tenho um problema com alguém, a chantagem é escrever uma canção. E, de facto, o Andanças parecia desdobrar-se de hora a hora em motivos para que aquela canção se fizesse. Sessões de djambé às 6 da manhã, com um gajo a tentar dormir. Uma tenda cheia de gente de braços no ar com a música de fusão dos Olivetree quando, ao lado, estava um grupo de gaitas galegas a tocar para ninguém”.
O que a canção dizia é que a tradição não é imutável, não é “exotismo urbano” e músicas do mundo”, como diz Fachada a determinado momento do filme. Pois bem, a partir da gravação do vídeo no Andanças, Tiago Pereira ficou “preparado” para o que viria a ser “Tradição Oral Contemporânea”. Antes disso, confessa, “sabia que o ia levar a ver as pessoas em Trás Os Montes e, porque as conheço, sabia o que aconteceria nesse encontro. Não sabia o resto”. O que acontece então é essa viagem em salto constante. B Fachada em Caçarelhos e no Algoso e uma cena belíssima em que acompanha Adélia Garcia à guitarra, em que outra cantadeira, Avelina, sentada ao lado deles, improvisa com duas conchas o ritmo da canção. Isso ou Fachada a mostrar a sua música a Adélia, em cenário caseiro de lareira acesa, e ela a ouvi-lo com atenção enquanto o marido corrompe a “seriedade” do momento perseguindo insectos com o mata-moscas. Sobre B Fachada, Adélia tem no filme opinião firme: “Como não querem que cante bem? É novo”. Sobre Adélia, Fachada teoriza: “Existe o conhecimento colectivo e a comunidade tradicional. Depois, existem três ou quatro pessoas por geração com grande capacidade de memorizar esse conhecimento, essas canções, e de as alterar. A Adélia tem uma memória que não se encontra, que não conheço”. É a ela que Fachada resgata a supracitada “D. Filomena”, canção centenária de sangue e traição, que passou a interpretar regularmente. Em “Tradição Oral Contemporânea”, lá a ouvimos entre as suas canções lisboetas, as suas canções que referem Frank Zappa, que falam de Bagdad, que inventam aforismos portáteis para o século XXI. Este é o ponto fulcral: o que interessa a Tiago Pereira e a Fachada é a possibilidade de renovação da tradição, é recusá-la como passado imutável, é “perder aquela arrogância urbana de achar que o conhecimento tradicional é circunstancial”. Fachada: “É um vício de século XX e XXI achar que nos últimos seiscentos anos o mundo esteve sempre igual e que agora é que isto está a mudar, ou seja, que as circunstâncias que permitiram a tradição formar-se deixaram de existir. A tradição e o conhecimento comunitário são inatos e não desaparecem por haver um TGV a ligar Lisboa ao Porto”.
09.01.2009 – Mário Lopes

 

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Vídeo: B-Fachada, o filme