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DOIS ABADES “MORAES CASTRO” Em Caçarelhos[Século XVIII]

1-NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

Jerónimo de Morais Castro e Bento José de Morais Castro pertenceram à mesma família alargada, possivelmente como tio e sobrinho, gente de posses e estudos (1) cujo patronímico se, mantém na graciosa povoação em que nasceram, Santa Valha, actualmente concelho de Valpaços, outrora do bispado de Miranda. Um após outro foram párocos vitalícios colados na abadia de São Pedro de Caçarelhos, durante os cinquenta anos que medeiam entre 1733 e 1783. O segundo sucedeu oficialmente ao primeiro a partir de 1773 (1)

1.1 Abade Jerónimo de Morais Castro

Filho legítimo de Francisco de Morais Castro e de Maria Coelho, nasceu na dita povoação de Santa Valha a 04/07/1703, em cuja igreja matriz foi baptizado quatro dias depois. Foram seus padrinhos Jerónimo Morais Castro, do mesmo lugar, e Maria de Sá, da vizinha povoação de Sonim, viúva de António de Morais Castro.(1)Estudou e foi ordenado presbítero ma diocese de Miranda. Com idade de trinta anos, foi oponente e vencedor no concurso público para a abadia de Caçarelhos, que vagara por desistência, mediante renúncia apresentada pelo abade Manuel Leite de Azevedo de Vasconcelos. Para este se reservou uma pensão vitalícia sobre os rendimentos da paróquia renunciada.(2)
Na sequência deste concurso e por efeito dele em 20/02/1733 o papa Clemente XII nomeou o padre Jerónimo de Morais Castro abade vitalício de Caçarelhos, onde, a partir dessa data, sempre residiu e trabalhou durante cinco décadas consecutivas.
Em 1733, obteve do papa Clemente XIV bula de renúncia a favor do padre Bento José Morais de Castro, que com ele já vinha residindo e colaborando, segundo consta no processo de colocação deste. Aí se diz também “o resignante reservava para si uma pensão anual de cem ducados de ouro equivalente em moeda portuguesa a 195$000 reis sobre os rendimentos certos, e com os rendimentos de mais bens que possuía pode comodamente sustentar-se”. E mais aí se informa: “… os frutos certos e incertos deste benefício (paroquial) de Caçarelhos rendem anualmente pouco mais ou menos de 429 ducados de ouro, o equivalente em moeda portuguesa a 836$550 reis”.

O abade Jerónimo de Morais Castro “era zeloso, sempre residiu na freguesia que paroquiou mais de trinta anos (foram efectivamente quarenta) (…) já estava velho e resignava a favor do padre Bento José livre e espontaneamente sem qualquer constrangimento”, confirmou um sacerdote testemunha no mesmo processo.

No Paço Episcopal de Miranda, a 13/07/1773, o abade Jerónimo assinou a declaração da sua renúncia, que foi confirmada no dia 22 seguinte. Nessa declarou que “não houve simonia nem nada contra os sagrados cânones”. Nessa mesma data, 22/02/1773, ali foi empossado o novo abade Bento José de Morais Castro. Os respectivos editais estiveram publicamente expostos durante três dias na porta principal da igreja matriz de Caçarelhos, onde os afixou o padre Manuel Pires de Moura, “cura desta igreja”, também ele natural desta freguesia.

1.2 – Abade Bento José de Morais Castro

Nasceu em Santa Valha, como seus pais António de Morais Castro e Leonor Maria Quitéria de Vasconcelos. D. Frei Aleixo de Miranda Henriques, o famigerado bispo que de armas e bagagens se transferiu de Miranda para Bragança, conferiu-lhe as quatro ordens menores na igreja de São Bento desta cidade em 21/12/1759, e o subdiaconado a titulo de património seu, em 20/12/1760. Com as devidas dimissórias recebeu o diaconado em Zamora, das mãos de D. Frei Francisco de Santo André, em 19/12/1761. Foi ordenado presbítero porD. Gaspar, em Braga, a 18/12/1862. Após livre e voluntária renúncia do abade Jerónimo à paróquia de Caçarelhos a favor do padre Bento José, este obteve do papa Clemente XIV, em 1773, a respectiva bula de colação. Foi-lhe agraciado o beneplácito régio por El-Rei D. José. Em 13/07/1773, foi examinado e unanimemente aprovado no concurso a esta paróquia, na qual foi empossado a 22/07/1773, conforme atrás se referiu. No mesmo processo de colação se lê que “já residia e trabalhava nesta paróquia, não tinha qualquer outro benefício paroquial com residência obrigatória e que também o resignante reservava para si uma pensão anual de cem ducados de ouro, equivalente em moeda portuguesa a 195$000 reis, sobre os rendimentos certos e incertos da mesma paróquia”: Também sobre este benefício paroquial, o papa concedia uma pensão anual de 100$000 réis a favor de Bernardo de Vasconcelos da Fonseca Pinto, natural da vila de Trancoso, diocese de Pinhel. Segundo este dito processo, os rendimentos certos e incertos desta paróquia de Caçarelhos são anualmente 740 a 750 mil réis. O padre Bento José terá sido o abade titular de Caçarelhos cerca de dez anos. Possivelmente após a morte do seu antecessor, conterrâneo e familiar, terá concorrido a outra paróquia. Mediante concurso público, em 15/12/1783 foi colado abade vitalício desta paróquia de Caçarelhos o padre doutor Francisco da Silva Padrão, presbítero secular formado em sagrados cânones, natural da cidade do Porto e domiciliado na diocese de Bragança. Segundo a legenda do arco-cruzeiro da igreja (paroquial) de São Joanico (Vimioso), a ele se deve a construção desta mesma igreja, que por esse tempo continuava anexa à de São Pedro de Caçarelhos, cujo abade apresentava naquela o respectivo cura.

2 – Obras: Monumentos sagrados e profanos

Sob a égide do abade Jerónimo de Morais Castro e durante os últimos trinta anos da sua vida e acção pastoral de Caçarelhos, aqui se construí a actual capela-mor desta igreja matriz e a escadaria de acesso ao adro fronteiro à entrada principal da mesma igreja, a capela do Santo Cristo o Cruzeiro e, possivelmente, também a Fonte do Lugar e a casa da Abadia. Datas inscritas nos três monumentos sagrados fazem prova indiscutível. As duas restantes construções não apresentam inscrições nem lhe conheço referências documentais. Por se enquadrarem num mesmo contexto histórico e espacio-temporal específico desse tempo e lugar, não parece terem sido feitas sem a intervenção do padre Jerónimo e do abade Bento José ou dos mais próximos sucessores deste.

2.1 – Igreja Matriz e sua Capela-Mor

No século XVI, quando abade e povo de Caçarelhos levantaram esta nova igreja Matriz, capricharam na elegância e robustez do seu frontispício, que todo construíram em silharia de granito. “Bela torre de características renascentistas (…) será obra do mestre canteiro Belchior Fernandes, que fez a torre sineira da Misericórdia de Miranda e outras (nas ultimas décadas do século XVI e princípios do século XVII)… e foi mestre da obra da Sé de Miranda”.(3)

A capela-mor e o corpo da igreja terão sido construídos em alvenaria por simples pedreiros. Arruinaram-se e foram para reconstrução.
Na peanha da cruz de granito assente no vértice do frontão da actual capela-mor está inscrita a data de 1752. Era então aqui pároco vitalício o abade Jerónimo.

A ele se deve, portanto, a construção da actual capela-mor da igreja paroquial, visto que, na vigência do “antigo regime” todas as despesas com o culto de Santíssimo, incluindo a construção e conservação da capela-mor, decorriam a expensas do abade e por conta do rendimento do benefício paroquial.
O abade Jerónimo esmerou-se nesta obra. “Em todo o conjunto externo (…) se nota nitidamente a verticalidade da construção do mestre canteiro (…) Manuel Gonçalves, pai de José Gonçalves, que por ai construíram muitas capelas-mores e aos quais podemos atribuir, eventualmente, a construção da capela-mor da Igreja Paroquial de Caçarelhos”.(3)
Também o seu interior estava razoavelmente decorado. Com área suficiente, era mingado o pé-direito. Sofreu algumas modificações aquando das obras de restauro efectuadas nesta igreja entre 1946 e 1950. Aproveitando o vão sob o telhado, alteou-se–lhe o tecto. O conjunto beneficiou em espaço e elegância. As paredes laterais, que inicialmente apresentavam paralelepípedos pintados a branco, azul e preto, em harmonioso conjunto, foram uniformemente caiadas a branco. Desapareceram para sempre. O retábulo do altar-mor não acompanhou a elevação do tecto e, na parte superior, o remendo não condiz com o pano. Continua imperfeita a parte superior das paredes laterais.
Decorreram apenas cinquenta e dois anos sobre aquela grande obra de restauro. Os altares já tiveram de ser novamente pintados e dourados. Imerecidos se confirmaram os elogios então dados efémera obra.
De louvar a actual vassourada sobre a excrescência constituída por dois pseu-do-altares, ali mal nascidos há meio século, em total desacordo com o harmonioso conjunto inicial. Pecou só por incompleta essa limpeza.

2.2 Capela de Santo Cristo das Chagas e São Bartolomeu

“Esta capela a mandou fazer o abade Jerónimo de Moraes Castro com ajuda das esmolas dos devotos do apostolo Sam Bartolomeu. Ano de 1776”, lê-se textualmente na precisa veraz e concisa inscrição gravada na fachada principal da mesma capela. Nesta data, o padre Jerónimo não era já abade de Caçarelhos por mor de sua voluntária em 1773. Porque de corpo, alma e coração, livre e generosamente nesta abadia continuou a residir e a trabalhar, porque principalmente a ele se deve a erecção desta nova capela, maisjustamentemereceuohonrosotitulode “abade”, que na dita inscrição gravado ficou.
Pela figura estilística, “ ajuda das esmolas dos devotos do apostolo Bartolomeu” se designa, sem nomear a família dos Pires Morgados, cujos antepassados tinham sido administradores do pequeno morgadio e dos bens vinculados ao “hospital” ou hospício aqui instituídos por Andrés de Fresno, aí pelo século XVI. Abolidos os ditos vínculos por legislação do Marqués de Pombal, cessaram as organizações que sobre eles impediam. Por isso, “a ajuda das esmolas dos devotos” implica total liberdade e liberalidade na colaboração prestada. Simultaneamente exclui qualquer obrigação imposta por lei sobre os ditos vínculos, quando e porque já tinham sido oficialmente extintos. A dita “ajuda” foi tão preciosa e bem-vinda que mereceu, como prova de gratidão livremente expressa por mestre e artistas pedreiros, a valiosa e inestimável oferta do belo cruzeiro, definitivamente assente de fronte do antigo “hospital” onde já os Pires Morgados tinham construído a sua casa de habitação.
A planta da Capela e a do Cruzeiro naturalmente se presume serem dos mestres canteiros Manuel Gonçalves ou do seu filho José Gonçalves, naturais de Santa Maria de Âncora (Minho). A execução de ambas estas preciosidades artísticas pertenceu à sua boa equipa de artistas pedreiros.

O facto de serem minhotos e o de fazerem boa obra por baixo preço, como se comprovou com a reconstrução da ponte de São Joanico (4), concordam perfeitamente com a tradição ainda viva em Caçarelhos, segundo a qual gastaram todo o dinheiro do ajuste na construção dos alicerces da Capela. Com a mesma tradição concorda a origem minhota dos artistas.
A denominação desta capela parece ter variado ligeiramente ao longo dos seus 227 anos de existência. No livro de contas da sua confraria ou mordomia, entre 1803 e 1839, vem sempre designada por “capela de São Bartolomeu e Santo Cristo das Chagas”. Desde 1839 até 1884, último abrangido no dito livro, varia a ordem da designação dos dois padroeiros. Ultimamente, por lei do menor esforço, tem-se chamado simplesmente “capela do Santo Cristo”. O seu verdadeiro nome completo e originário deverá ter sido o de “Santo Cristo das Chagas e São Bartolomeu”.
A escolha dos padroeiros e a colocação das imagens no único altar da capela pertenceu naturalmente a quem saldou as despesas da obra da mesma e na proporção do respectivo contributo. Por isso, em lugar de destaque, ao centro e em plano superior, o belo crucifixo, quase em tamanho natural, representa a contribuição, vontade, influência e preferência do Abade. A Santa Cruz foi a grande devoção que influenciou todo o Cristianismo a partirdas Cruzadas do Oriente.
Simetricamente colocadas, uma de cada lado do altar em plano médio inferior, a imagem da Senhora da Conceição e a de São Bartolomeu simbolizam a proporção da “ajuda” material e das devoções particulares dos “devotos do apóstolo São Bartolomeu”. Efectivamente, desde longa data, o nome deste apóstolo se convertera em topónimo designativo do lugar onde encontrava a antiga orada da Senhora da Conceição, sobre a qual Andrés de Fresno fundara o morgadio e vinculara bens materiais para sustento do “hospital”, a que fazem referência os visitadores desta paróquia durante o século XVII (5).
A construção do aqueduto sob o qual correm as águas que descem do São Bartolomeu (topónimo) terá feito desaparecer os últimos vestígios dessa capelinha. O único sinal que actualmente resta é uma cruz tosca de granito assente sobre uma fraga na bifurcação dos caminhos, a poente e pouco distante do aqueduto. Mãos piedosas do outeirense Armando Rodrigues ali a colocaram quando foi expulsa doutra pequena rocha junto do ribeiro…
Depressa a nova capela do Santo Cristo das Chagas e São Bartolomeu se tornou lugar de piedade e devoção deste Povo, que sempre acorre em bom número quando ali se celebram actos de culto. Com alguma superstição à mistura, a pequena sineta da capela é freneticamente tangida sempre que nuvem ameaçadora de tormenta desponta no horizonte visual desta gente.
O interesse, zelo, respeito devoção e cuidado do seu fundador relativamente à dita Capela não foram tão apreciados por algum dos sucessores dele quanto o foram sempre por este cristão povo de Caçarelhos.
No seu orçamento ordinário para o ano económico de 1869, a Junta de Paróquia incluiu, além de outras obras de carácter civil, algumas reparações na igreja matriz e nas duas capelas então existentes. Consistiam em “forrar a capella mor e fazer as portas da igreja consertar as vidraças tanto da igreja e capela do Santo Cristo como d’ambas as sacristias(…) e toda a obra da capella da Santa Luzia”:
Este orçamento e plano de obras foi devidamente aprovado pelo Governador Civil do Distrito e pela Câmara Municipal de Vimioso. Na acta da sessão ordinária desta Câmara realizada a 10/08/1869, lese a este respeito o seguinte: “Acordou a Câmara, em aprovar os contratos que a Junta de Caçarelhos fez para várias obras na sua freguesia em 27/06/1869 cujos contractos foram submetidos a esta Câmara e ela os examinou e aprovou.”(6).

Em sessão ordinária de 06/06/1869, a Junta de Paróquia de Caçarelhos passou e afixou editais, a fim de “andarem em praça por vinte dias as ditas obras para serem definitivamente arrematadas no dia 27 de Junho”. Em sessão do dia 20 deste, a junta marcou o lugar, a hora e as condições dos pregões para a arrematação de cada obra individualmente. Todas estas obras foram efectivamente arrematadas nesse dia, segundo todas as condições de estilo. Na cópia autêntica dessas actas da Junta de Paróquia se diz que, devidamente convocado, o presidente da Junta a nenhuma dessas sessões compareceu. E mais se esclarece “Passado já sessenta minutos sobre a hora marcada, sem comparecer o Presidente, (…) foi o mesmo mandado chamar pelo Regedor e Vogaes da Junta; e porque a criada do dito Presidente respondeu que ele estava doente, tomou a presidência o vogal mais velho (…) e foi mesmo chamado o vogal do biénio antecedente (para substituição legal do numero de Vogaes da Junta na presente sessão); os quais mandaram abrir sessão para os efeitos legais”(7). O Presidente da Junta era o pároco.
Procedeu-se ao pregão das ditas obras, que foram entregues, feitas e pagas. As contas desta Junta de Paróquia foram aprovadas pela Câmara Municipal de Vimioso em sessão de 10/10/1869, nos seguintes termos: “Presentes à Câmara as contas da Junta de Paróquia de Caçarelhos, referentes ao ano económico de 1868/69, as quais aprovou pelas achar nos termos legais”.(8)
Dezanove anos mais tarde, em 23/06/1888, D. José Alves Mariz, bispo desta diocese, fez a visita pastoral Caçarelhos. No termo que da mesma se lavrou na secretaria episcopal, e enviada cópia dele ao pároco desta paróquia e por ele transcrita no livro respectivo, se lê o seguinte a respeito da dita capela de Santo Cristo: “… Recomendado ao Revdº parocho e à digna Junta de Parochia que tratassem de promover a conservação da magestosa Capela situada na extremidade da povoação de Caçarelhos, que é monumento de piedade e de boa architectura, e por esses motivos, alemde outros muito obios (sic), bem merece os consertos (sic) de que tanto carece, para não se arruinar”. Mas esses indispensáveis consertos não se fizeram, apesar da recomendação episcopal.
Esta recomendação oficial do bispo diocesano, feita vinte anos mais tarde, só vem confirmar as preocupações dos leigos membros da Junta de Paróquia em 1869 atrás referida.
Os pássaros que naquele telhado nidificaram e a subsequente caça aos ninhos deles quando a povoação era populosa, os jogos violentos de “relha” e “ferro” que naquele pequeno adro repetidamente se realizaram, o último (des)arranjo das escadas de acesso à entrada principal por obra de desastrados “artistas”, que destruíram a forma de papo de rola aos respectivos degraus, a acção corrosiva dos elementos da natureza conjuntamente contribuíram para a “magestosa” capela carecesse dos bons cuidados e arranjos que felizmente lhe têm sido dispensados nas ultimas duas décadas.

2.3 – Cruzeiro

A sua história ficou já incluída na da Capela, da qual é uma consequência natural. Só mais umas breves notas. No pedestal deste maravilhoso monumento aparece, distribuída por três das suas quatro faces, a seguinte inscrição em latim: “Anº D. 1777 “, que, em língua portuguesa, quer dizer “Ano do Senhor de 1777”. No documento atrás citado referente à visita pastoral de 23/06/1888, o escrivão da Câmara Eclesiástica escreveu a respeito do Cruzeiro :”O mesmo Exm.º e Revm.º Senhor proibiu jogos públicos e clamorosos ao pé do venerando Cruzeiro, que é outro monumento muito destinto, que honra as piedosas crenças dos havitantes (sic) desta frequesia”.

Cruzeiro

Durante dois séculos, aquele espaço foi a sala de visitas da aldeia, ponto de encontro dos rapazes solteiros, praça pública onde se expuseram, discutiram e resolveram questões importantes desta povoação.
Actualmente aquelas venerandas escadas recebem carinhosamente alguns idosos que por ali vão cavaqueando horas e dias seguidos. Turistas fortuitos e ávidos de artísticos monumentos seculares extasiam seus olhos sobre esta primorosa jóia de arte, mal cuidada, com velas fumarentas a mais e flores a menos.
Este Cruzeiro há-de ser sempre um documento comprovativo da justa recompensa paga por quem reconheceu o direito de quem bem trabalhou, mesmo que se tenha enganado na previsão das despesas. O seu a seu dono. Foi oferecido porque fora justamente pago.
O abade Jerónimo de Morais Castro deixou-nos três monumentos religiosos totalmente públicos, donde jamais alguém foi excluído, fosse por que motivo fosse. Neles todos cabem e todos têm lugar. Nunca para si reclamou qualquer privilégio sobre direito de posse ou de exclusão de alguém. Igreja, Capela e Cruzeiro de Santo Cristo foram e são de todos e para todos.

1- Dívida de Gratidão e Justiça

Não se apressou o abade Jerónimo Morais de Castro a adquirir, à sombra da igreja, casa e “casal” para si e para os seus. Preocupou-se com a erecção de templos de culto divino.

Caçarelhos deve-lhe o maior e melhor conjunto de monumentos sagrados que jamais, antes ou depois dele, aqui alguém fez construir e que nós actualmente usufruímos.
IGREJA MATRIZ, CAPELA DO SANTO CRISTO E CRUZEIRO constituem o mais precioso e simbólico “ex-libris” de Caçarelhos.
Individual e colectivamente devemos a este venerando Abade gratidão e justiça.Podemos e devemos, quanto antes, retribuir e pagar digna e honrosamente.
Atribuir-lhe destacado lugar na toponímia urbana desta povoação, onde ao longo de meio século residiu e trabalhou, só nos fica bem, é possível e até fácil.
Esta nossa toponímia urbana não deve nem pode continuar a fazer-se à mercê do desconhecimento do nosso passado, como se não tivéssemos história ou ninguém a conhecesse.
A história de cada povoação é Bíblia Sagrada que todos os nativos ou residentes devem conhecer, amar e respeitar. É bússula que, através das lições do passado, orienta a construção do presente e a preparação do futuro, em que todos temos direito e dever de colaborar, a fim de que nos seja auspicioso e feliz.

Francisco Formariz

1– Arquivo Distrital de Bragança – Concursos Paroquiais de Caçarelhos;
2
– Castro, P. Joséde – Bragança e Miranda, Porto 1951 – IV, 391;
3-Mourinho, A. R. – Arquitectura Religiosa da Diocese de Miranda do Douro – Bragança, Sendim, 1995 pp. 379;
4- Mourinho, A. R – Brigantia – Vol XIV, Nº 3/4, 1994 pp. 31, doc.8;
5- Alves, F. M. – Memórias Arqueológicas…, IV, 673-677;

6- Livro das Actas das Sessões da Câmara Municipal de Vimioso, 1869, f.47 f.§ 2;
7- Livro das Actas da Junta de Paróquia de Caçarelhos. Cópia fiel extraída pelo próprio escrivão da Junta, que no livro a exarou;
8- Livro respectivo das Actas das sessões da Câmara Municipal de Vimioso.

FOTOS:

Cedida por: Orlando Machado

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